Vidas importam: a origem de um negócio lucrativo (parte 01)
“Nossa missão central é oferecer, proteger e expandir o acesso ao aborto e à saúde reprodutiva. Nós nunca recuaremos nessa batalha. É um direito humano fundamental e a vida das mulheres está em jogo”. Esta é a afirmação de Leana Wen, sucessora de Cecile Richards na direção da Planned Parenthood (PP), diretora de uma das maiores empresas deste ramo.
Quando questionado sobre este tema, o professor e filósofo Olavo de Carvalho, em resposta aos leitores no Jornal da Tarde, de 22 de janeiro de 1998, nos traz uma profunda reflexão e pontua o seguinte: “(…) acabei por desenvolver um agudo sentimento da diferença entre os problemas colocados pela fatalidade das coisas e os problemas que só existem porque determinadas pessoas querem que existam. Ora, o problema do aborto pertence, com toda a evidência, a esta última espécie. O questionamento do aborto existe porque a prática do aborto existe, e não ao contrário”.
Hoje caro(a) leitor(a), dando continuidade aos temas, pessoas e situações referentes ao século XX (teremos “muito chão pela frente”, até finalizar este século). Para tanto é importante destacar o trabalho da “mãe” do controle de natalidade, a saber, Margaret Sanger(1879-1966). Na divulgação da primeira clínica de controle de natalidade dos Estados Unidos, fundada por Margaret Sanger, no ano de 1916 um anúncio apareceu em Nova York com esta propaganda: “Mães! Você tem condição financeira de ter uma família grande? Você quer mais filhos? Se não, por que você os tem? Não mate, não tire a vida, mas faça a prevenção. Informações seguras e inofensivas podem ser obtidas com enfermeiras treinadas…”
Mas afinal, quem foi Margaret Sanger? No livro, Arquitetos da cultura da morte, os professores Benjamin Wiker e Donald DeMarco, nos trazem que Margaret, “filha de Michael Hennessey Higgins e Anne Purcell Higgins, era um dos onze filhos do casal. A mãe, uma católica devota, o pai, sua influência heroica, um completo inconformista, socialista e livre-pensador, era um homem exasperado com o tratamento dispensado aos mais pobres e desconfiado das religiões organizadas, sobretudo o catolicismo”.
Margaret saiu de sua cidade e foi estudar na Faculdade Claverack (na realidade, um internato de ensino médio). Conheceu neste ambiente o estudante Corey Alberson, de quem se tornou noiva, mas com o estado de saúde da mãe, voltou para a casa (a mãe morreu com 49 anos, e após sua morte, brigava com o pai constantemente, acusando-o de matá-la). Inconformada, acabou indo para White Plains, em Nova Jersey, trabalhando como uma espécie de aprendiz de enfermeira em um hospital. Neste hospital, em uma festa, conheceu o arquiteto Willian Sanger (um anarquista socialista, ainda mais ferrenho do que seu pai, a todo tipo de religião organizada). Casou-se, e teve três filhos.
Sobre sua maternidade, os professores mencionados nos trazem as seguintes informações, “(…) Margaret era uma mãe desatenta, afetuosa, mas entediada com a vida doméstica. Como observou a biógrafa Madeline Gray: Ela adorava abraçar e beijar os filhos, mas se responsabilizar por eles era outra história.
Passou muito tempo em círculos radicais, o que a colocou em contato com o emergente movimento de controle de natalidade. A causa dos trabalhadores pobres também despertava nela uma violenta indignação, alimentando seu desejo de buscar apoio para as inúmeras causas socialistas. Durante este período saíra de sua imersão e voltou a se dedicar à enfermagem, com atuação na obstetrícia.
Trabalhou na Associação de Enfermeiras Visitantes da Cidade de Nova York, indo em áreas pobres da cidade, ajudando no parto dos filhos. Em sua autobiografia, Sanger conta que depois de uma mulher se recuperar de um aborto auto induzido, a mesma lhe implorou que ela lhe desse algum tipo de contraceptivo. Segundo ela, “este acontecimento foi crucial, pois estava decidida a mudar o destino de mães cujos sofrimentos eram do tamanho do céu”.
Embora a situação da mulher atendida tivesse alguma participação em sua defesa do controle de natalidade, existiam outras causas mais importantes que foram tomando corpo, e ganhando forma, a liberação do desejo sexual e a nova ciência da eugenia. Na Europa, Margaret se deleitou com a descoberta dos muitos métodos contraceptivos e retornado para os Estados Unidos, dedicou-se a atividade editorial, realizando em seus escritos, os mais diversos protestos, sobretudo contra os males do capitalismo e da religião, e aclamava os benefícios da contracepção.
E para encerrar nossa primeira parte, se faz necessário destacar que “(…)o legado de Margaret Sanger é contestado hoje devido a comentários que ela fez e por sua associação com o movimento de eugenia, e […] ao mesmo tempo, ela lançou as bases para o serviço de saúde sexual e aborto dos EUA, o programa Planned Parenthood […], colocando em circulação uma das formas mais comuns de controle de natalidade no mundo”. (BBC, Margaret Sanger: o controverso legado da ‘mãe’ do controle de natalidade, 04/02/2023). Esta trajetória acontece no período da Primeira Guerra Mundial, e suas ideias se desenvolvem até chegar nos dias atuais. Continua…











