Na rua Piedade, número 612, em Tubarão, pulsa uma história de amor, luta e memória. É ali, entre paredes que ouviram risos de crianças, orações de gratidão e despedidas dolorosas, que Dona Marinalva Barbosa, de 78 anos, resiste a um pesadelo que ameaça apagar tudo o que construiu em mais de meio século de vida. A viúva de Edson Luís Barbosa está prestes a perder o único bem que lhe restou: a sua casa. O seu lar. Seu chão sagrado.
Tudo começou há cerca de três décadas, quando a família Barbosa administrava uma loja franqueada da operadora TIM. Por conta de desentendimentos comerciais, uma ação de cobrança foi movida contra Edson, responsável legal pela empresa. O negócio foi encerrado, os bens da empresa exauridos… mas, por uma sequência trágica de equívocos, sobrou como alvo de penhora a casa da família — a mesma que nunca teve relação com a loja.
Tudo começou quando o endereço residencial foi associado, por engano, a uma entidade filantrópica que Edson ajudou a fundar — um albergue para pessoas vulneráveis. Por necessidade e urgência, Edson usou o endereço de casa para registrar a iniciativa, mas ela jamais funcionou ali. Era um gesto de bondade, não de confusão. E agora, esse gesto ameaça transformar o lar de Dona Marinalva em solo perdido.
“Essa casa é minha vida. Aqui criei meus filhos, enterrei meu marido, aqui está a nossa história… cada canto tem uma lembrança”, diz Dona Marinalva, com os olhos marejados e a voz embargada por um medo que já não a deixa dormir.
Amparada pela Lei nº 8.009/90, que protege o imóvel da família da penhora, e pela própria Constituição, que reconhece como entidade familiar mesmo um só genitor com seus filhos, Dona Marinalva não deveria sequer estar vivendo essa aflição.
O advogado da família luta para reverter a penhora. “Não estamos falando de má-fé, nem de fraudes. Estamos falando de uma senhora viúva, de baixa renda, que pode ser despejada por causa de um erro de endereço. Isso não é Justiça. Isso é desumanidade”, afirma.
Comovida, a comunidade se mobilizou. Centenas de vizinhos assinaram um abaixo-assinado pedindo que Dona Marinalva permaneça em seu lar. “Essa casa sempre foi dela. O Edson era um homem bom, ajudava todo mundo, mas nunca misturou as coisas. Esse processo está errado desde o começo”, afirma seu João, vizinho há mais de 40 anos.
A presidente da Associação de Moradores também se pronunciou: “Estamos falando da dignidade de uma vida inteira. A Justiça precisa deixar de olhar só o processo e enxergar a pessoa”.
Enquanto os tribunais ainda não corrigem o erro, Dona Marinalva vive dias de incerteza e tristeza. “Eu só queria sossego, sabe? Ficar aqui no cantinho onde vivi com meu marido, onde tudo tem cheiro de família. Não tenho outro lugar; não tenho outro imóvel e nunca tive. Não tenho forças para recomeçar. Eu só queria ficar em paz, no fim da minha vida, pois sofri muito.”
Esse caso não é apenas uma disputa jurídica. É um apelo humano. Um grito silencioso que pede o que todo ser humano merece: respeito, sensibilidade e justiça. Que a história de Dona Marinalva seja ouvida — e que o Direito não seja cego à dor dos justos.











