Não é bem assim: o caso da Renascença
“Os frequentes assassinatos, as tramas perenes e as vicissitudes constantes encorajavam uma visão romântica e supersticiosa do Destino. Os homens se sentiam vítimas de estranhos destinos, e se voltavam para os astrólogos e magos para fortalecer sua esperança, controlar o desalento, e ajudá-los a enfrentar o futuro incerto com confiança. As estrelas eram estudadas tão intensamente quanto os despachos diplomáticos, como uma guia para a ação; e o terror supersticioso atravessava o curso diário da vida dos homens”.
Basicamente, muitos, lendo a descrição acima, pensariam em se tratar da Idade Média. Entretanto, a descrição foi realizada pelo historiador britânico John H. Plumb, em seu livro, The Italian Renaissance (A Renascença italiana). Não muito simpático a Idade Média, descreveu como era a vida no auge da Renascença, no seu primeiro epicentro italiano, por volta de 1500.
Hoje caro(a) leitora(a), após descrevermos outros aspectos, em nada “politicamente correto” da Idade Média, apresentaremos o segundo período, do segundo bloco para compreensão do politicamente incorreto na formação do Ocidente, a Renascença. Mas antes, descrevendo em expressões como: a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens (referência à Santo Agostinho) numa perspectiva assertiva, objetiva, contundente, podemos consolidar nossa visão do medievo, através da descrição do professor Orlando Fedeli.
Neste sentido, sobre a Idade Média, dizia o professor, “(…) o apogeu da Cidade de Deus na História realizou-se na Cristandade medieval, durante o século XIII. Foi o tempo das Catedrais, do Feudalismo, das Universidades. Foi o tempo das Cruzadas e da Cavalaria. Foi o tempo em que São Tomás e São Boaventura ensinavam na Sorbonne. Foi o tempo da Suma Teológica. Foi o tempo dos grandes santos, tais como São Francisco e São Domingos.
Não foi, porém, um período sem males. Foi a época de Frederico II, dos hereges cátaros, dos hereges Espirituais Franciscanos, dos Fraticelli e da irrupção do Milenarismo Joaquimita. Foi a época de Dante e de seus Fedeli d’Amore. Como foi o tempo da edição do Roman de la Rose, livro imoralíssimo — o mais lido da Idade Média — e que dava um programa para destruir a Igreja, defendendo as mais escandalosas teses heréticas que acabaram triunfando na Modernidade”.
Passaremos agora, ao período que inaugurou de modo mais abrangente, a transição dos tempos medievais, para dar lugar a um renascimento em diversas áreas, que ficou conhecido e denominado, de Renascença. Mas afinal, do que se trata, e quais as contribuições para o que sucedeu após a sua existência? Primeiramente, o que descreveu o professor Fedeli, ao se referir a Idade Média, como o apogeu da Cidade de Deus na História, irá contrastar com a Renascença, como a Cidade dos Homens.
Em linhas gerais, o que representou a Renascença como a Cidade dos Homens? Uma mudança significativa na concepção do homem sobre seu papel, diante dos seus semelhantes e do mundo. Foi a mudança, numa tentativa de destruir a Cidade de Deus, e fazer triunfar, a Cidade dos Homens, substituindo Deus como o centro, e colocando o homem em seu lugar. O Teocentrismo dá lugar ao Antropocentrismo, ou, a Religião do Homem. O divórcio da filosofia e da fé.
Para Ortega y Gasset, no livro, História como sistema (1941), “(…) o diagnóstico de uma existência humana — de um homem, de um povo, de uma época — deve começar identificando o sistema de suas convicções e crenças”. Podemos destacar que o Renascimento (compreendido entre os séculos, XIV, XV, XVI e parte do XVII), trouxe grandes movimentos, nas artes, na política, na economia, na sociedade, na cultura, na religiosidade e nas ciências.
Assim, a frase de Protágoras (490 – 415 a.C.), “ o homem é a medida de todas as coisas”, sintetiza o movimento deste período. Ideias tem consequências, isso é um fato. Logo, se o mundo, se as pessoas, não se orientam para o bem, e se o homem não é senão um animal superior, nossa vida é, segundo Macbeth (tragédia do dramaturgo inglês William Shakespeare, sobre um regicídio e suas consequências): “(…) Uma história contada por idiotas, Cheia de som e fúria, Que nada significa”.











