Pedras Grandes, no Sul de Santa Catarina, vive os últimos dias de preparação para a 5ª Festa da Colônia Azambuja 1877 sob um clima que ultrapassa o caráter festivo. O que tradicionalmente é uma celebração da cultura e da memória da imigração italiana assume, neste ano, também a dimensão de um posicionamento institucional claro diante das recentes mudanças na legislação italiana sobre cidadania.
Marcado para o próximo fim de semana (dias 25 e 26), o evento celebra os 149 anos da chegada dos primeiros imigrantes italianos à região — marco fundador de uma identidade que permanece visível na paisagem, nos costumes e na vida comunitária. Ao mesmo tempo, a edição de 2026 incorpora um elemento novo: a manifestação simbólica de descontentamento com o chamado Decreto-Lei nº 36 (Decreto da Vergonha), que restringe o reconhecimento da cidadania italiana por descendência.
Essa insatisfação se materializa nos próprios cartazes e materiais visuais da festa. Bandeiras italianas aparecem com tarjas pretas e a inscrição “DL 36 vergonha”, numa linguagem direta que dispensa explicações adicionais. A escolha estética não é casual. Ela traduz um sentimento difuso entre descendentes de italianos que veem na nova legislação uma ruptura com uma tradição histórica de transmissão da cidadania.
O gesto político mais contundente veio do prefeito Agnaldo Filippi, que, ao lado da festa, evidencia o rompimento do pacto de amizade entre Pedras Grandes e a cidade de Belluno, na Itália. A decisão chama atenção justamente pelo peso simbólico que carrega. Trata-se de um município que se reconhece como berço da colonização italiana no Sul catarinense e que mantém vínculos históricos com a região de origem de seus colonizadores.
Reafirmando seu discurso quando tornou pública a decisão, o prefeito destaca que o rompimento não representa um afastamento da Itália enquanto referência cultural e histórica, mas uma reação ao que considera uma postura desrespeitosa do Estado italiano em relação à comunidade ítalo-descendente no exterior. Segundo ele, não se trata de contestar a soberania legislativa da Itália, mas de exigir que mudanças dessa natureza sejam conduzidas com respeito à história compartilhada.
A posição ganha ainda mais relevância pelo fato de Filippi também presidir a Associação Bellunesi nel Mondo de Pedras Grandes, entidade que simboliza justamente a continuidade desses laços. Nesse contexto, a decisão assume caráter ainda mais expressivo, ao evidenciar uma tensão entre a tradição cultivada ao longo de gerações e as recentes escolhas políticas adotadas na Itália.
Apesar do tom crítico, a essência da festa permanece preservada. A programação inclui celebrações religiosas, desfiles de famílias, apresentações culturais, música e gastronomia típica, reunindo moradores e visitantes em torno de elementos que definem a identidade local. O que muda é o ambiente em que essas atividades se inserem. A festa passa a funcionar também como espaço de expressão de uma comunidade que busca afirmar sua história diante de um cenário de incertezas.
A inauguração da Rodovia dos Imigrantes, pdelo governo do Estado, é outro destaque da festa segundo informa o prefeito Filippe na entrevista exclusiva que concedeu à Revista Insieme.
A Colônia Azambuja, fundada no final do século XIX por imigrantes vindos principalmente do Vêneto, não é apenas um marco histórico, mas um símbolo de continuidade. Foi a partir dali que se estruturaram formas de vida, trabalho e convivência que ainda hoje definem a região. É essa herança que está no centro tanto da celebração quanto da reação.
A proximidade do sesquicentenário da imigração italiana no Sul de Santa Catarina, previsto para 2027, amplia o significado da edição deste ano. Mais do que uma etapa preparatória para uma data redonda, a festa de 2026 se insere em um momento de reflexão sobre o sentido contemporâneo dessa herança.
Entre a celebração e o protesto, Pedras Grandes projeta uma mensagem que ecoa para além de seus limites geográficos. Ao mesmo tempo em que reafirma a importância de preservar a tradição, o município sinaliza que essa tradição não pode ser dissociada do respeito à história de quem a construiu. A Festa da Colônia Azambuja 1877, neste contexto, deixa de ser apenas um evento cultural e se consolida como expressão viva de uma identidade em movimento.











